quebra-cabeça infinito

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A maior dificuldade para qualquer novato das HQs vem depois das primeiras revelações. Onde estão as outras? Onde estão os quadrinhos que vão superar a história incrível que acabei de ler? Como consigo descobrir? Google, né?

Aí pinta o problema central do fluxo da informação sobre qualquer assunto atualmente: nunca o acesso foi tão fácil, mas também nunca houve volume tão vertiginoso, com o agravante particular, no caso dos quadrinhos, de que a informação costuma estar fragmentada. Mais: nosso mercado ainda tem lacunas. Cresceu, mas segue em formação. Você vê uma crítica elogiosa a um encadernado, por exemplo, mas ele é o segundo volume. O primeiro está esgotado.

Uma característica pessoal, no meu caso, cria uma considerável dificuldade adicional: não consigo ler um número 4, por exemplo, sem ler o 1, o 2 e o 3. Mesmo que me digam que não há nenhuma dependência, que a história recomeça do zero, vou esperar até conseguir todos os exemplares. Em alguns casos prefiro ler toda a obra de um artista, em sequência cronológica, até chegar no clássico.

Em progresso, eternamente – Para superar essa idiossincrasia quase paranoica, foi preciso acumular informações aos poucos, virar um estudante, aceitar que levaria tempo até descobrir as histórias essenciais de cada personagem ou autor e se familiarizar com linhas cronológicas de décadas, principalmente no caso de heróis.

Como quase tudo que nos move de verdade na vida, nunca acaba, está em constante movimento e mudança – sempre vai haver uma nova descoberta. O que eu poderia querer mais? Por que colecionar quinhentas e poucas figurinhas se eu posso montar um quebra-cabeça infinito?

Hoje acumulo mais de três mil gibis. Fanzines e edições independentes nacionais caprichadas, comics americanos de heróis em mixes ou encadernados de capa mole e dura, álbuns europeus simples ou luxuosos, graphic novels de todas as origens e nos mais diferentes tamanhos e acabamentos, mangás clássicos e contemporâneos, fumettis tradicionais em preto e branco e suas versões coloridas em capa dura.

Tenho muita leitura atrasada, claro, mas a sensação é de que estou apenas começando. Não se larga um quebra-cabeça pela metade.

 

OS PRIMEIROS PASSOS

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o começo: três hqs marcantes

Desde meados de 2014, quando comecei a descobrir as HQs, li e comprei dezenas, talvez centenas de milhares de páginas impressas e encadernadas de quadrinhos. Mas três histórias, lidas no começo da aventura, são as que considero determinantes para eu passar da indiferença ao colecionismo inveterado.

Marvels, clássico de Kurt Busiek e Alex Ross (Salvat, edição original Marvel, tradução não informada), foi a primeira. A história conta, pelo ponto de vista de um fotógrafo, como foram percebidas as primeiras aparições dos heróis no mundo. Despertou minha curiosidade sobre como se desenvolveram as histórias de TODOS os heróis, uma pretensão que pode ser classificada como humanamente impossível de se completar em vida.

Em seguida veio Fracasso de Público, de Alex Robinson (Gal Editora, edição original Antarctic Press, tradução Eliane Gallucci e Maurício Muniz). Li o primeiro e corri para as lojas atrás dos outros dois. Não lembro se encontrei na Comix ou na Gibiteria, ambas lojas repletas de objetos de desejo, localizadas perigosamente próximas da minha casa. Robinson criou uma história de cotidiano, pessoas comuns com dramas banais, mas sem a sutil contradição de fazer o prosaico parecer especial, como geralmente acontece nesse gênero. Foi a senha para eu começar a caça a todo quadrinho autoral disponível.

Mais ou menos na mesma época, foi a vez de Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini Comics, edição original Vertigo, tradução Érico Assis). Uma história universal, que se passa entre São Paulo e o litoral baiano, escrita por brasileiros, reconhecida e premiada mundo afora. Era o contato fundamental com uma história cuja temática é o mundo que me cerca, o bar onde eu bebo, a rua em que eu passo, os problemas e jeito de ver o mundo que eu reconheço como a nenhum outro. A arte cumprindo um dos seus papéis mais relevantes: colocar uma sociedade, por algumas páginas que seja, no centro do mundo. Como ignorar todos os pares de Bá e Moon, os artistas que aqui vivem, recriam nossos lugares e nossa vida? Mais uma missão para o leitor tardio.

Capas dos quadrinhos Fracasso de Público, Marvels e Daytripper (Arquivo pessoal)
As edições em que li os três quadrinhos

 

OS PRIMEIROS PASSOS

um leitor tardio de quadrinhos

Comecei a ler quadrinhos há menos de três anos. Um pouco por falta de hábito, um pouco por preconceito, não devo ter aberto mais do que três ou quatro gibis antes disso, contando aí a infância. Sim, fui uma das oito crianças brasileiras com algum acesso a cultura e informação que não aprendeu a ler com as revistas da Turma da Mônica.

Meus templos – Se não me falha a memória, o que é sempre improvável, tudo começa com uma coleção de figurinhas. Mais de 25 anos e uns 800 quilômetros me separam da primeira vez que entrei em uma banca de jornal. No começo, só queria completar os álbuns. Não demorou para a atração passar para os universos de papel impresso por onde se espiava o mundo. Pulei direto das figurinhas para as revistas semanais e jornais. Sempre lembro com orgulhinho bobo que, aos 16 anos, comprava o único exemplar da Folha de S.Paulo que chegava na minha cidade, Laguna, SC.

O contato com coberturas e debates do jornalismo do centro do país, que revelavam e ampliavam o entendimento da realidade que chegava pasteurizada pelas antenas da tevê aberta, me fazia sonhar mais que os mundos fantásticos da ficção, particularmente dos quadrinhos. Não por acaso, optei pelo jornalismo. Por mais vinte anos permaneci ignorando a seção de gibis das bancas – até que pintou o álbum de figurinhas do Mundial 2014.

Legado da Copa – Pela primeira vez, eu era um colecionador com dinheiro: pirei. Passava o dia trocando figurinhas, atualizava planilhas que controlavam as que faltavam e as repetidas. Completei o álbum antes de todo mundo. A abstinência foi aliviada e substituída por outra coleção que eu via nas bancas quando ia comprar os pacotinhos mágicos. Era a primeira de graphic novels de super heróis, da editora Salvat, que havia começado a circular um pouco antes. “São só 60 livros, daqui a pouco eu completo. Nunca mais eu tive paz.

 

OS PRIMEIROS PASSOS