7 (+8) tirinhas brasileiras para se acompanhar online

Reflexões sintéticas sobre o nosso tempo. Sarcasmo, melancolia, lirismo, humor nonsense ou inocente para expressar o momento político ou comportamental do país e do mundo, às vezes em apenas um quadro sem texto. Ora sutis, ora agressivas, as tirinhas – e suas irmãs charges e cartuns – têm a capacidade de causar identificação, perplexidade, riso, ternura ou indignação em uma rápida olhada.

Listei quinze artistas que praticam esta arte instantânea hoje no Brasil com brilhantismo. A lista inicial tinha sete, mas à medida que fui pesquisando, descobri mais e mais, até que decidi incluir mais oito como bônus – por isso o “7 (+8)” no título.

Os quadrinhos, diários ou eventuais, podem ser acompanhados por blogs, sites ou perfis em redes sociais, cujos links também estão listados.

 

laerte

blog   |   twitter   |   facebook

cyhhiuqxaaa3qj8
laerteinception2
pir-2141-22_10

Lenda do quadrinho nacional em plena atividade. É um privilégio poder compartilhar da observação aguçada, do brilhantismo dos desenhos e da permanente reinvenção expressas nas criações diárias de Laerte.

Faz tiras desde os anos 70 e tem muitas publicações impressas, sendo as mais recentes Olhos de Bicho (UgraPress, novembro de 2016), em parceria com DW Ribatski, e Modelo vivo (Barricada, novembro de 2016).

  • Entrevista em vídeo em seis partes ao canal Drauzio Varella [link]
  • Entrevista em vídeo à revista Cult [link]
  • Entrevista de 2007 ao site O Grito! [link]

 

alexandre lourenço

blog   |   facebook   |   instagramauto-retrato1nc3a3o-conseguia
Resignação, melancolia, humor pessimista e contemplativo equilibrados por uma estranha mania de ter fé na vida. Alexandre Lourenço registra, quase silenciosamente, a passagem cotidiana do tempo se utilizando do espaço ocupado pelo desenho e explorando de forma única as possibilidades que a interface digital proporciona.

Alguns quadrinhos são intransponíveis para publicações tradicionais. Você vai entender o porquê clicando nos links a seguir para ver as tirinhas que não cabem nesse post: mergulho, escapista, cachorro.

Publica no blog Robô Esmaga desde 2010, de onde tirou alguns dos quadrinhos que compõem um livro de mesmo nome (JBC, novembro de 2015). No ano passado, saiu sua primeira obra mais longa, Você é um babaca, Bernardo (Mino, setembro de 2016).

  • Entrevista ao blog da loja Itiban Comic Shop [link]
  • Entrevista ao blog Poltrona Mobius [link]

 

andré dahmer

twitter   |   facebook   |   lojinha

bmezlajcqaadbv7vandaloscvswo1twgaad9k2

Acidez e ironia sintéticas como base para raciocínios sofisticados e desconcertantes que transitam sobre inúmeros temas. Em três quadros, às vezes em menos de dez palavras, a mágica insiste em acontecer.

André Dahmer foi um dos primeiros quadrinistas brasileiros a ganhar fama através da internet, ainda no começo dos anos 2000, quando começou a publicar a tirinha Malvados. Tem vários livros publicados, sendo os mais recentes Vida e Obra de Terêncio Horto (Cia. das Letras, setembro de 2014) e Quadrinhos dos anos 10 (Cia. das Letras, abril de 2016)

  • Entrevista em vídeo ao site Saraiva Conteúdo feita em 2010 [link]
  • Entrevista em texto também ao Saraiva Conteúdo [link]

 

tatyane menendes

site   |   facebook   |   instagram   |   lojinha

14681102_1496573070359523_4536686341359525195_o

16179376_1628425117174317_6357550216424742896_o

Ternura, solidão, humor docemente negro, desejo, lirismo, saudade. Cabe tudo nas tirinhas e ilustrações de Tatyane Menendes, onde ela mostra a si mesma e afirma um mundo de amor possível, ainda que inevitavelmente dolorido.

Mantém a fanpage no facebook ,onde publica suas criações, desde dezembro de 2013. Publicou o zine Porra Tatiana e comercializa quadros com suas ilustrações na lojinha (que no momento está fora do ar).

 

ricardo coimbra

blog   |   twitter   |   facebook   |   lojinha

c2z-fqbxcaqsp-0clfz3pfwyaajyuv

Sarcasmo e verborragia contra posers, adolescentes de 38 anos, discursos de fachada, falsos moralistas, modinhas e frescuras em geral. O Obina do amor, como se define, não poupa ninguém.

Publica no blog Vida e Obra de mim mesmo desde 2009 e reuniu seus cartuns e tirinhas no livro Vida de Prástico (Gato Preto, 2014). No fim do ano passado, publicou o zine Tragical Misery Tour em parceria com Bruno Maron.

  • Entrevista ao Scream & Yell [link]
  • Entrevista em vídeo produzida para o Festival do Minuto [link]

 

ivana amarante

facebook   |   instagram   |   lojinha1006157_489143671162070_667181681_n

14329964_1092175490858882_7763390560939742375_n

Divertidos, involuntariamente meigos e, como fica claro na tirinha acima, descontroladamente fofos. Sem vergonha de trocadilhos infames e cheias de auto-ironia, as tirinhas de Ivana Amarante são críticas, sim, mas ácidas jamais. Expõem, com leveza e graça, dilemas que certamente não são só dela .

Publica no facebook desde janeiro de 2012 e comercializa produtos com a sua personagem em uma lojinha online.

  • (auto) Entrevista em vídeo no youtube [link]
  • Entrevista ao Lady’s Comics [link]

 

sirlanney

blog   |   facebook   |   instagram   |   lojinha

10360390_919206858113764_2777480093604029117_n

1779862_720483637986088_249140171_nOs dias a fazer quadrinhos, viver e sofrer a vida, sem medo de se mostrar vulnerável. Saudade, tesão, ansiedade, alegrias, insegurança, descobertas, falta de grana, tédio. Oscilações que nos mantêm vivos, mas que às vezes parecem aniquilar além do suportável.

Por esse terreno instável circulam os quadrinhos intimistas de Sirlanney, que registra seus momentos desde 2012 no blog Magra de Ruim, mesmo nome da antologia financiada pelo Catarse (independente, 2015), que ganhou nova edição pela Lote 42 recentemente.

  • Como é a Vida de Uma Quadrinista da Internet, por Sirlanney [link]
  • Entrevista em vídeo ao Avante Cast [link]
  • Entrevista à Revista Trip [link]

 

bônus 1 (confins do universo)

Confins do Universo, o podcast do infatigável Universo HQ, dedicou uma edição inteira às tirinhas impressas. O assunto é tão vasto que decidiram falar apenas das tradicionais de jornal; as feitas na web, como a maioria acima, serão tema de outro podcast. Foi daqui que surgiu a ideia para este post.

Sidney Gusman, Samir Naliato, Marcelo Naranjo e Sérgio Codespoti proporcionam mais de uma hora e vinte minutos de ótimo papo, muita informação e contextualização histórica, memórias pessoais e uma avalanche de referências e indicações. Confere lá.

 

bônus 2 (+8)

bruno maron [facebook]desabafa1

sahr [facebook]tumblr_oeuh8sjyge1vct2tpo1_1280

raphael salimena [blog]tirap043

laura athayde [facebook]tumblr_o3vw6rhrof1s59hjvo1_1280

benett [twitter]
c1zkkycweaaghvg

thaiz leão gouveia [facebook]
12646997_557957931032535_8725034517983962805_n

aureliano [facebook]15085644_1111116112331597_255400392134879822_n

orlandeli [site]
1072sic

 

ESPECIAL QUADRINHOS NACIONAIS
(1) 
um podcast, um webdoc e uma série de entrevistas
(2)  15 tirinhas para acompanhar online
(3)  6 webséries para ler agora (em breve)
(4)  2 publicações-panorama
(em breve)
(5)  4 canais de informação (em breve)
(6)  muitos quadrinhos independentes (depois do carnaval)
(7)  3 editoras representativas da produção recente (bem depois do carnaval)

Anúncios

porque hoje é sábado

Hoje é dia de ócio. Vou tentar fazer posts aos sábados sem falar de quadrinhos. Pretendo que sejam sobre música. Para começar, o óbvio.

 

P.S.: roubei a ideia do professor Cesar Valente, que fazia postagens com o mesmo título e conteúdo que fugia dos assuntos mais frequentes do De olho na Capital, blog que mantinha sobre política catarinense.

shazam! – com uma palavra mágica…(novos 52)

Uma nova aventura de origem atualiza Billy Batson, identidade à paisana de Shazam. Deixa de lado a pureza e a ingenuidade características do personagem. No lugar, um órfão problema de idade avançada que vive sob a tutela de uma assistente social e pula de casa em casa sem conseguir encontrar um lar definitivo. Os Vasquez são a enésima tentativa, mas têm algo especial: costumam acolher crianças mais velhas e parecem ter um motivo bem particular para isso – ele chega à nova família para ser o sexto filho adotivo.

shazamA partir daí começam pequenos desentendimentos, seguidos de aproximações e novas rejeições. A relação entre Billy e a nova família ganha caráter menos banal e se aprofunda à medida que ele se aproxima do seu destino místico, com os antagonistas clássicos do herói, Dr. Silvana e Adão Negro, fazendo relevantes aparições.

A trama consegue se manter atraente e divertida até o fim, com pequenas revelações e reviravoltas ao longo das cerca de 170 páginas de história. Mesmo não sendo personagens bem desenvolvidos, gosto bastante da participação dos irmãos de Billy (Mary, Freddy, Pedro, Eugene e Darla), que aparecem a maior parte do tempo em conjunto. Dão boa dinâmica para as partes não-heroicas do quadrinho, particularmente minhas preferidas.

A resolução final talvez seja um pouco simples, mas não chega a abusar da licença poética, como parece comum em roteiros de herói. Bem no fim, uma ponta solta indica continuação. Enfim, foi diversão para toda a família.

avaliação
3,8 / 5
(bom)

shazam_ilustra

Shazam! – Com uma palavra mágica…
Geoff Jons (roteiro), Gary Frank (arte) e Brad Anderson (cores)
Levi Trindade e Bernardo Santana (tradução)
Panini Books, outubro de 2015
196 páginas, 17 x 26 cm, colorido, capa dura, R$ 29,90

Shazam!
DC Comics, maio de 2012 a agosto de 2013 (mensais)


P.S.: Vale lembrar que Shazam é um herói cuja saga fora dos quadrinhos é mais cheia de reviravoltas do que qualquer roteiro. Em meio a brigas judiciais que se arrastaram por décadas, assumiu várias identidades (Marvelman, Capitão Marvel, Miracleman) e viveu em muitos mundo (fawcett, marvel, dc). Mas esse é um assunto que talvez seja retomado aqui quando eu ler Miracleman, clássico de Alan Moore.

 

as aventuras do barão wrangel – uma autobiografia

O barão Wrangel, o magnata das camisas de popeline, é um aristocrata europeu – um playboy desocupado, para ser claro. Ostenta sem esforço um ar blasé e pomposo, mas que possivelmente pela ingenuidade é também cativante. Depois de ser flagrado na cena de um assassinato, se vê metido com obscuras organizações conspiratórias que existem para desvendar segredos milenares cuja chave, acreditam, o barão agora possui.

wrangel_Illuminatis, templários, uma espiã russa, o sultão do Brunei, uma marquesa ciumenta, falsários, colecionadores de raridades com nomes estranhos e toda a fauna clichê dos filmes policias e de aventura passam a se alternar na perseguição pelos lugares mais improváveis – Berlim, Antuérpia, um navio no Atlântico, pirâmides de Gizeh, Himalaia, rio Ganges etc.

O que se anuncia inicialmente como uma aventura vai aos poucos ganhando traços de comédia até virar uma caricatura de quadrinhos e filmes de ação. Entre atentados e sabotagens, o Barão Wrangel segue em busca de papiros, manuscritos, cálices e mapas secretos. Lá pela quarta ou quinta reviravolta mirabolante, a história assume sua vocação e cai na galhofa.

A paródia do português João Carlos Fernandes, autor também da série A pior banda do mundo, é uma mistura leve de homenagem e crítica. Apesar da aparente contradição, é possível perceber os dois elementos na história. O tom do humor é um nonsense bem característico do autor, do qual eu particularmente gosto muito, a ponto de me fazer gargalhar.

avaliação
4,4 / 5
(muito bom)

wrangel_ilustra

As aventuras do barão Wrangel – Uma autobiografia
José Carlos Fernandes
Devir – Portugal, 2003
124 páginas, 16,5 x 25,5 cm, pb, lombada quadrada, R$ 29,90


 

a produção brasileira de quadrinhos em um podcast, um webdoc e uma série de entrevistas

Hoje é o dia do quadrinho nacional. O mote será aproveitado para dar início a uma série de posts, sete ou oito no total, sobre a produção brasileira. Vêm aí listas de publicações online e impressas, editoras e canais de informação.

Para começar, três materiais jornalísticos complementares entre si, mais um bônus. Há outros conteúdos ótimos, claro, mas estes são os que me pareceram mais significativos no momento para formar um panorama.


Como começar a ler quadrinhos?podcast do Nexo

Apesar do título, a primeira parte do podcast abaixo dá mais ênfase a questões ligadas às hqs no Brasil. Um dos entrevistados, André Conti, editor da Companhia das Letras até dias atrás, faz um histórico dos momentos marcantes da produção nacional, enfatizando o papel de Rogério de Campos e da Conrad para o amadurecimento do nosso mercado. Enfoca também a lenta entrada das hqs em livrarias, o crescimento dos independentes e da participação das mulheres. Na parte final, artistas falam de seus trabalhos, preferências e indicam obras para começar a ler quadrinhos.


 

Vozes e Traços, webdocumentário

Os mais importantes artistas, editores, tradutores, jornalistas especializados e lojistas dão uma visão bastante realista do que é viver de quadrinhos no Brasil. Dividido tematicamente em cinco partes (1. artistas independentes, 2. pequenas editoras, 3. diversidade, 4. lojas e eventos e 5. desafios), o webdoc registra as conquistas dos últimos anos e as principais dificuldades enfrentadas no dia a dia.


 

Quadrinhos para Barbadossérie de entrevistas

Dezenas de conversas com quadrinistas brasileiros – há também algumas poucas com estrangeiros e outras com profissionais ligados às hqs, como editores, tradutores e lojistas. Os artistas contam suas histórias, como começaram, como surge uma ideia para uma nova obra, quais as principais referências, hábitos de trabalho e projetos futuros. Edição boa e, em geral, papo muito franco.


 

Bônus

Érico Assis, tradutor e agitador do gibi, publicou hoje um excelente texto sobre o que andam fazendo alguns dos principais artistas nacionais. A crônica – em tempo real? – Um Dia do Quadrinho Nacional saiu no Blog da Companhia. Vale clicar no link e dar um pulo lá!

 

ESPECIAL QUADRINHOS NACIONAIS
(1) 
um podcast, um webdoc e uma série de entrevistas
(2)  15 tirinhas para acompanhar online
(3)  6 webséries para ler agora (em breve)
(4)  2 publicações-panorama
(em breve)
(5)  4 canais de informação (em breve)
(6)  muitos quadrinhos independentes (depois do carnaval)
(7)  3 editoras representativas da produção recente (bem depois do carnaval)

blitzkrieg

Quatro meninos sofrem com as “brincadeiras” nada agradáveis do valentão da escola. Cansados de apanhar ou de ver a mochila arremessada no telhado, os amigos se juntam para dar um basta nos abusos do colega mais forte. É isso ou a humilhação se eterniza.

a07_blitzkriegPodia ser ET ou Goonies ou Stranger Things. Mas a pequena saga é contada no quadrinho Blitzkrieg (independente, novembro de 2016), de Bruno Seelig.

Simples e curtinha, direta ao ponto, traço ótimo e arte num tom azulado, como se fosse feita a caneta bic. É mais uma história de companheirismo e cumplicidade – e de novo funcionou, talvez pelo final, que consegue surpreender.

avaliação
4,0 / 5
(bom)

blitz_ilustraBlitzkrieg
Bruno Seelig
Independente, novembro de 2016
28 páginas, 18 x 26 cm, azul e branco, lombada com grampos
R$ 15


PS.: quem gosta de histórias do mesmo gênero não pode perder o filme Sing Street: música e sonho, produção irlandesa que se passa em Dublin nos anos 80. Está disponível no Netflix.

uma metamorfose iraniana

Existem os presos comuns, que cometem crimes como roubo, estelionato ou assassinato. Existem os presos políticos, que cometem o que se consideram crimes de opinião ou agem em discordância com princípios autoritários de uma ditadura. E há o caso de Mana Neyestani, chargista, autor e protagonista de Uma metamorfose iraniana (Nemo, junho de 2015).

uma_metamorfoseEle não atacou o  aiatolá nem o governo de turno, comandado por Mahmoud Ahmadinejad em 2006, como costuma acontecer com os presos políticos de regimes autoritários como o iraniano. Ele também não foi encarcerado por um crime que não cometeu ou por algum equívoco da polícia ou da justiça, o que seria típico de histórias que expõem os dramas de ser privado de liberdade injustamente.

Mana foi preso por um crime que não é crime. Não é possível, portanto, provar inocência porque a lei que ele descumpriu não existe, não está escrita. De fato, é um preso político, mas sem uma acusação precisa, nem a isso teve direito. O que determina a punição que sofreu é algo volúvel, porém definitivo: a vontade de um juiz. Sem ter a quem recorrer, sem que argumentos e provas sejam sequer ouvidos, Mana fica refém do arbítrio de burocratas do governo, investidos de autoridade pela teocracia iraniana.

Fica fácil de entender o título do quadrinho e a referência a Kafka, cuja obra é marcada pela criação de labirintos burocráticos estatais, que diminuem, asfixiam e paralisam as pessoas. Outro ponto de contato com Kafka está na própria Metamorfose, considerada a maior obra do escritor tcheco e cujo tema é, literalmente, a desumanização do ser humano, transformado em uma barata. O motivo da prisão de Mana foi uma charge, publicada em um suplemente infantil, que mostra uma barata conversando com um menino.

O inseto de Uma Metamorfose Iraniana pronuncia um termo azeri, etnia de origem turca do norte do Irã. Os azeris, ou azerbaijanos, se sentiram ultrajados porque consideraram que a charge os chamava de baratas, o que seria mais uma humilhação dos persas, etnia hegemônica no país. Protestos violentos estouraram, mortes foram registradas e o chargista foi preso – um bode expiatório para o regime mostrar serviço. A partir da prisão passamos a acompanhar os dias do artista na cadeia. Entre transferências e audiências vagas, os dias são carregados de incertezas e de terror psicológico. A ameaça de tortura física paira no ar e agentes da polícia política insistem que Mana delate colegas de profissão.

Apesar da angústia, da indignação e do medo constante do que pode vir na página seguinte, o autor-protagonista consegue dar leveza à narrativa, às vezes sendo até engraçado. Não é um quadrinho de humor, evidentemente, mas há uma visão bem humorada que o amarra e ajuda a atravessar a história. Revela um jeito de encarar a existência e me pareceu essencial, junto com o apego à própria vida, para que Mana Neyestani superasse os dias na prisão e tudo que ainda veio a seguir.

avaliação
4,4 / 5
(muito bom)

img_0406
Uma metamorfose iraniana
Mana Neyestani
Fernando Scheibe (tradução)
Nemo, junho de 2015
208 páginas, 24 x 16,6 cm, pb, lombada quadrada
R$ 39,90

Une métamorphose iranienne
Ça et Là, 2012


 

quebra-cabeça infinito

estante-de-quadrinhos

A maior dificuldade para qualquer novato das HQs vem depois das primeiras revelações. Onde estão as outras? Onde estão os quadrinhos que vão superar a história incrível que acabei de ler? Como consigo descobrir? Google, né?

Aí pinta o problema central do fluxo da informação sobre qualquer assunto atualmente: nunca o acesso foi tão fácil, mas também nunca houve volume tão vertiginoso, com o agravante particular, no caso dos quadrinhos, de que a informação costuma estar fragmentada. Mais: nosso mercado ainda tem lacunas. Cresceu, mas segue em formação. Você vê uma crítica elogiosa a um encadernado, por exemplo, mas ele é o segundo volume. O primeiro está esgotado.

Uma característica pessoal, no meu caso, cria uma considerável dificuldade adicional: não consigo ler um número 4, por exemplo, sem ler o 1, o 2 e o 3. Mesmo que me digam que não há nenhuma dependência, que a história recomeça do zero, vou esperar até conseguir todos os exemplares. Em alguns casos prefiro ler toda a obra de um artista, em sequência cronológica, até chegar no clássico.

Em progresso, eternamente – Para superar essa idiossincrasia quase paranoica, foi preciso acumular informações aos poucos, virar um estudante, aceitar que levaria tempo até descobrir as histórias essenciais de cada personagem ou autor e se familiarizar com linhas cronológicas de décadas, principalmente no caso de heróis.

Como quase tudo que nos move de verdade na vida, nunca acaba, está em constante movimento e mudança – sempre vai haver uma nova descoberta. O que eu poderia querer mais? Por que colecionar quinhentas e poucas figurinhas se eu posso montar um quebra-cabeça infinito?

Hoje acumulo mais de três mil gibis. Fanzines e edições independentes nacionais caprichadas, comics americanos de heróis em mixes ou encadernados de capa mole e dura, álbuns europeus simples ou luxuosos, graphic novels de todas as origens e nos mais diferentes tamanhos e acabamentos, mangás clássicos e contemporâneos, fumettis tradicionais em preto e branco e suas versões coloridas em capa dura.

Tenho muita leitura atrasada, claro, mas a sensação é de que estou apenas começando. Não se larga um quebra-cabeça pela metade.

 

OS PRIMEIROS PASSOS

12 livros para 2017

O foco principal aqui são quadrinhos. Mas a quase exclusividade que dei a eles nos últimos anos me causou danos. Passei a ler pouquíssimos livros – e eles me fazem falta. Por isso, antes de falar sobre os quadrinhos que tenho lido, vou estabeler uma meta de livros para 2017, copiando o que vi em canais do youtube.

Três são releituras, com os demais trocava olhares há tempo.

Quatro são escritos em espanhol, quatro em inglês, quatro em português – todos estes brasileiros. Três são dos Estados Unidos e os cinco demais são da Inglaterra, México, Colômbia, Uruguai e Argentina. Seis autores estão vivos, seis mortos – um faleceu na semana passada. Três são mulheres, nove são homens.

Quatro são considerados clássicos, embora eu ache que são cinco. Pode-se dizer que só três autores são famosos, do tipo que têm a morte noticiada no Jornal Nacional; um deles ganhou o Nobel, os outros mereciam – mais uma opinião pessoal. Um quarto escritor está sempre cotado. Só um não é ficção, mas escrito por um autor, cujo nome verdadeiro é Eric Blair, que ficou célebre por elas.

A Companhia das Letras aparece quatro vezes; a Record, duas. Nova Fronteira, Alfaguara, Editora 34, Planeta Literário, Folha de S.Paulo (coleção Ibero-americana) e L&PM aparecem uma vez cada.

Eis!

O Círculo, Dave Eggers (Companhia das Letras)
Estados Unidos, inglês,
homem, vivo.

Corpo de Baile (vol.1), João Guimarães Rosa (Nova Fronteira)
Brasil, português,
clássico, releitura,
homem, morto, famoso. 

O que deu para fazer em matéria de amor, Elvira Vigna (Companhia das Letras)
Brasil, português,
mulher, viva.

Outros cantos, Maria Valéria Rezende (Alfaguara)
Brasil, português,
mulher, viva.

Antonio, Beatriz Bracher (Editora 34)
Brasil, português,
mulher, viva.

Pedro Páramo, Juan Rulfo (Record)
México, espanhol,
clássico, releitura,
homem, morto.

A vida Breve, Juan Carlos Onetti (Planeta Literário)
Uruguai, espanhol,
clássico?,
homem, morto.

Respiração Artificial, Ricardo Piglia (Folha de S. Paulo)
Argentina, espanhol,
homem, morto recentemente.

Cem anos de solidão, Gabriel García Marquez (Record)
Colômbia, espanhol,
clássico,
homem, morto, famoso, nobel.

Na pior em Paris e Londres, George Orwell (Companhia das Letras)
Inglaterra, inglês,
releitura, não-ficção,
homem, morto, famoso, eric blair.

Associacão judaica de polícia, Michael Chabon (Companhia das Letras)
Estados Unidos, inglês,
homem, vivo.

Complexo de Portnoy, Philip Roth (L&PM)
Estados Unidos, inglês,
clássico,
homem, vivo, cotado ao nobel.

 

OS PRIMEIROS PASSOS

o começo: três hqs marcantes

Desde meados de 2014, quando comecei a descobrir as HQs, li e comprei dezenas, talvez centenas de milhares de páginas impressas e encadernadas de quadrinhos. Mas três histórias, lidas no começo da aventura, são as que considero determinantes para eu passar da indiferença ao colecionismo inveterado.

Marvels, clássico de Kurt Busiek e Alex Ross (Salvat, edição original Marvel, tradução não informada), foi a primeira. A história conta, pelo ponto de vista de um fotógrafo, como foram percebidas as primeiras aparições dos heróis no mundo. Despertou minha curiosidade sobre como se desenvolveram as histórias de TODOS os heróis, uma pretensão que pode ser classificada como humanamente impossível de se completar em vida.

Em seguida veio Fracasso de Público, de Alex Robinson (Gal Editora, edição original Antarctic Press, tradução Eliane Gallucci e Maurício Muniz). Li o primeiro e corri para as lojas atrás dos outros dois. Não lembro se encontrei na Comix ou na Gibiteria, ambas lojas repletas de objetos de desejo, localizadas perigosamente próximas da minha casa. Robinson criou uma história de cotidiano, pessoas comuns com dramas banais, mas sem a sutil contradição de fazer o prosaico parecer especial, como geralmente acontece nesse gênero. Foi a senha para eu começar a caça a todo quadrinho autoral disponível.

Mais ou menos na mesma época, foi a vez de Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini Comics, edição original Vertigo, tradução Érico Assis). Uma história universal, que se passa entre São Paulo e o litoral baiano, escrita por brasileiros, reconhecida e premiada mundo afora. Era o contato fundamental com uma história cuja temática é o mundo que me cerca, o bar onde eu bebo, a rua em que eu passo, os problemas e jeito de ver o mundo que eu reconheço como a nenhum outro. A arte cumprindo um dos seus papéis mais relevantes: colocar uma sociedade, por algumas páginas que seja, no centro do mundo. Como ignorar todos os pares de Bá e Moon, os artistas que aqui vivem, recriam nossos lugares e nossa vida? Mais uma missão para o leitor tardio.

Capas dos quadrinhos Fracasso de Público, Marvels e Daytripper (Arquivo pessoal)
As edições em que li os três quadrinhos

 

OS PRIMEIROS PASSOS

um leitor tardio de quadrinhos

Comecei a ler quadrinhos há menos de três anos. Um pouco por falta de hábito, um pouco por preconceito, não devo ter aberto mais do que três ou quatro gibis antes disso, contando aí a infância. Sim, fui uma das oito crianças brasileiras com algum acesso a cultura e informação que não aprendeu a ler com as revistas da Turma da Mônica.

Meus templos – Se não me falha a memória, o que é sempre improvável, tudo começa com uma coleção de figurinhas. Mais de 25 anos e uns 800 quilômetros me separam da primeira vez que entrei em uma banca de jornal. No começo, só queria completar os álbuns. Não demorou para a atração passar para os universos de papel impresso por onde se espiava o mundo. Pulei direto das figurinhas para as revistas semanais e jornais. Sempre lembro com orgulhinho bobo que, aos 16 anos, comprava o único exemplar da Folha de S.Paulo que chegava na minha cidade, Laguna, SC.

O contato com coberturas e debates do jornalismo do centro do país, que revelavam e ampliavam o entendimento da realidade que chegava pasteurizada pelas antenas da tevê aberta, me fazia sonhar mais que os mundos fantásticos da ficção, particularmente dos quadrinhos. Não por acaso, optei pelo jornalismo. Por mais vinte anos permaneci ignorando a seção de gibis das bancas – até que pintou o álbum de figurinhas do Mundial 2014.

Legado da Copa – Pela primeira vez, eu era um colecionador com dinheiro: pirei. Passava o dia trocando figurinhas, atualizava planilhas que controlavam as que faltavam e as repetidas. Completei o álbum antes de todo mundo. A abstinência foi aliviada e substituída por outra coleção que eu via nas bancas quando ia comprar os pacotinhos mágicos. Era a primeira de graphic novels de super heróis, da editora Salvat, que havia começado a circular um pouco antes. “São só 60 livros, daqui a pouco eu completo. Nunca mais eu tive paz.

 

OS PRIMEIROS PASSOS