uma metamorfose iraniana

Existem os presos comuns, que cometem crimes como roubo, estelionato ou assassinato. Existem os presos políticos, que cometem o que se consideram crimes de opinião ou agem em discordância com princípios autoritários de uma ditadura. E há o caso de Mana Neyestani, chargista, autor e protagonista de Uma metamorfose iraniana (Nemo, junho de 2015).

uma_metamorfoseEle não atacou o  aiatolá nem o governo de turno, comandado por Mahmoud Ahmadinejad em 2006, como costuma acontecer com os presos políticos de regimes autoritários como o iraniano. Ele também não foi encarcerado por um crime que não cometeu ou por algum equívoco da polícia ou da justiça, o que seria típico de histórias que expõem os dramas de ser privado de liberdade injustamente.

Mana foi preso por um crime que não é crime. Não é possível, portanto, provar inocência porque a lei que ele descumpriu não existe, não está escrita. De fato, é um preso político, mas sem uma acusação precisa, nem a isso teve direito. O que determina a punição que sofreu é algo volúvel, porém definitivo: a vontade de um juiz. Sem ter a quem recorrer, sem que argumentos e provas sejam sequer ouvidos, Mana fica refém do arbítrio de burocratas do governo, investidos de autoridade pela teocracia iraniana.

Fica fácil de entender o título do quadrinho e a referência a Kafka, cuja obra é marcada pela criação de labirintos burocráticos estatais, que diminuem, asfixiam e paralisam as pessoas. Outro ponto de contato com Kafka está na própria Metamorfose, considerada a maior obra do escritor tcheco e cujo tema é, literalmente, a desumanização do ser humano, transformado em uma barata. O motivo da prisão de Mana foi uma charge, publicada em um suplemente infantil, que mostra uma barata conversando com um menino.

O inseto de Uma Metamorfose Iraniana pronuncia um termo azeri, etnia de origem turca do norte do Irã. Os azeris, ou azerbaijanos, se sentiram ultrajados porque consideraram que a charge os chamava de baratas, o que seria mais uma humilhação dos persas, etnia hegemônica no país. Protestos violentos estouraram, mortes foram registradas e o chargista foi preso – um bode expiatório para o regime mostrar serviço. A partir da prisão passamos a acompanhar os dias do artista na cadeia. Entre transferências e audiências vagas, os dias são carregados de incertezas e de terror psicológico. A ameaça de tortura física paira no ar e agentes da polícia política insistem que Mana delate colegas de profissão.

Apesar da angústia, da indignação e do medo constante do que pode vir na página seguinte, o autor-protagonista consegue dar leveza à narrativa, às vezes sendo até engraçado. Não é um quadrinho de humor, evidentemente, mas há uma visão bem humorada que o amarra e ajuda a atravessar a história. Revela um jeito de encarar a existência e me pareceu essencial, junto com o apego à própria vida, para que Mana Neyestani superasse os dias na prisão e tudo que ainda veio a seguir.

avaliação
4,4 / 5
(muito bom)

img_0406
Uma metamorfose iraniana
Mana Neyestani
Fernando Scheibe (tradução)
Nemo, junho de 2015
208 páginas, 24 x 16,6 cm, pb, lombada quadrada
R$ 39,90

Une métamorphose iranienne
Ça et Là, 2012


 

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